A ciência da água também tem rosto de mulher e a ABRHidro ajuda a contar essa história
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No calendário internacional, o 11 de fevereiro é um marco para lembrar algo que deveria ser óbvio, mas ainda precisa ser afirmado com força: meninas e mulheres pertencem e também lideram na e pela ciência. Proclamado pela Assembleia Geral da ONU em 2015, o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência reforça que ciência e igualdade de gênero caminham juntas quando o objetivo é enfrentar os grandes desafios do nosso tempo.
Quando o assunto é água, esse recado ganha urgência. A gestão hídrica exige método, dados, planejamento, governança e capacidade de decisão em cenários complexos,de secas e cheias a conflitos de uso, saneamento, mudanças do clima e segurança hídrica. E, nessa trajetória, a presença feminina não é “complemento”: é parte estruturante do que o Brasil construiu e precisa avançar.
Números que mostram movimento e ainda apontam caminho
A base associativa da ABRHidro revela uma transformação em curso. Em 2025, as associadas somavam 264 pessoas, o equivalente a 41,7% do total (633). Em 2015, eram 194 associadas (35,5%), uma evolução que indica crescimento e consolidação da participação feminina na comunidade técnico-científica da água.
Ao mesmo tempo, os dados lembram que a equidade não é “automática”: ela é fruto de oportunidades reais, reconhecimento institucional, redes de apoio e ambientes profissionais onde talento não precisa pedir licença para existir. E, como não poderia deixar de ser, a ABRHidro defende essa pauta e essa ação pulsante.
Esse ponto, de acordo com a gestão, é especialmente relevante em áreas como as engenharias e as ciências aplicadas, historicamente mais masculinas em ocupação e visibilidade. “O 11 de fevereiro, portanto, não é apenas celebração: é um convite para medir, enxergar e corrigir”, comenta Suzana Montenegro, presidente da ABRHidro.
Reconhecimento com peso histórico: Profª Mônica Porto e o Prêmio Flávio Terra Barth
Há símbolos incontáveis que viram referência. No SBRH 2021, a Professora Mônica Ferreira do Amaral Porto, ex-presidente da ABRHidro, tornou-se a primeira mulher a receber o Prêmio Flávio Terra Barth, a principal distinção da Associação.
Mais do que um título, é uma mensagem institucional: excelência científica tem plural. Em um campo onde decisões técnicas impactam vidas, economias e territórios, valorizar trajetórias como a da Profª Mônica é também fortalecer o que a ciência tem de mais essencial: credibilidade, mérito e contribuição real.
A ABRHidro, aliás, carrega outros exemplos no seu próprio histórico, com ex-presidentes mulheres: Jussara Cabral, Synara Broch e Ingrid Illich Muller, que ajudaram a moldar a Associação e sua atuação no debate hídrico brasileiro.

Nova gestão, nova fotografia de representatividade
A virada de ciclo da ABRHidro chega com um retrato significativo: a condução institucional passa a ser liderada por mulheres no topo da estrutura.
A diretoria que assume o biênio 2026–2027 é encabeçada por Suzana Maria Gico Lima Montenegro (presidente) e Conceição de Maria Albuquerque Alves (vice-presidente), ambas engenheiras e pesquisadoras com trajetória sólida em recursos hídricos.


O mesmo processo eleitoral reforçou representações femininas em frentes estratégicas:
Diretoria de Representações com Caroline Kozak;
Coordenações regionais com mulheres à frente, como Rúbia Girardi (Sul), Jussanã Milograna (Centro-Oeste) e Núbia Abrantes Gomes (Norte);
Comissões Técnicas com forte presença feminina na coordenação de áreas-chave , de Águas Urbanas a Desastre, de Sedimentos e Hidrometria a Segurança de Barragens.
Esse desenho não é detalhe administrativo. É sinal de maturidade institucional: quando mais vozes qualificadas ocupam espaços de decisão, o debate ganha amplitude, o diagnóstico melhora e as respostas tendem a ser mais conectadas com a realidade dos territórios.
A nova geração também está em campo: a ciência não se renova sem espaço
Se o 11 de fevereiro fala de futuro, a CT Jovem é um exemplo concreto de como esse futuro já está sendo construído. A comissão tem coordenação feminina, com Tereza Margarida Xavier de Melo Lopes à frente, representando a potência da nova geração de pesquisadoras e profissionais que entram no setor com repertório técnico e disposição para inovar.
Não existe transformação na gestão hídrica sem renovação científica. E não existe renovação verdadeira quando metade do talento do país encontra barreiras invisíveis (e, muitas vezes, bem visíveis).
Publicar também é garantir voz: mulheres escrevem a ciência da água
Outro termômetro de participação é a produção científica. A ABRHidro sustenta canais essenciais de difusão do conhecimento, como a RBRH (Revista Brasileira de Recursos Hídricos) e a REGA (Revista de Gestão de Água da América Latina), além de anais e livros, um ecossistema editorial onde a ciência circula, é debatida, criticada e aprimorada.
Nessas páginas, há incontáveis autoras contribuindo com evidências, metodologias, modelagens, análises e soluções. É a ciência acontecendo de verdade e deixando rastro de potência efetivamente verificável e o principal: que contribui para a democratização do conhecimento.
11 de fevereiro é compromisso
Celebrar mulheres e meninas na ciência, no universo da água, é reconhecer o que já foi conquistado e assumir o que ainda falta. A gestão hídrica brasileira precisa de excelência técnica, diversidade de experiências e equidade de oportunidades. Não por “simbolismo”, mas por resultado: porque água é vida, é desenvolvimento, é saúde pública, é segurança.
Neste 11 de fevereiro, a ABRHidro reafirma um caminho: mais mulheres na ciência significa uma ciência mais forte e uma gestão da água mais preparada para o país que queremos construir.












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